Sebisa realiza evento sobre a violência contra a mulher


Os alunos do Setor de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Sebisa-UEPG) receberam, na noite desta quinta-feira (01), a Dra. Maria Letícia Fagundes, médica legista, para compartilhar as experiências e sensibilidades frente aos inúmeros casos de feminicídio. O convite partiu dos acadêmicos do curso de Medicina da UEPG, através do Centro Acadêmico (CA), em parceria com o Sebisa. 

Segundo a professora Fabiana Postiglione Mansani, diretora do Sebisa, a iniciativa que resultou na palestra da Dra. Maria Letícia se justifica pela necessidade de inclusão da temática da violência contra a mulher na formação dos futuros profissionais da UEPG. Fabiana ainda considera que momentos de debate e alerta como esse são capazes de promover mudanças sociais e, consequentemente, uma diminuição dos casos de violência contra as mulheres e meninas. “Trata-se de uma medida preventiva de conscientização a partir de um trabalho educacional de humanização, respeito e informação, de forma que, havendo o cometimento da violência, seja ela denunciada e reprimida com veemência”, enfatiza.

A acadêmica do 6º ano de Medicina, Caroline Link, afirma que a ideia de promover um evento acerca da violência contra a mulher era um desejo antigo do CA, a fim de proporcionar conscientização e mudanças necessárias: “O objetivo foi chamar a atenção da comunidade sobre o tema, expondo dados e a experiência da Dra. no atendimento a essas vítimas, buscando também sensibilizar a todos, por meio do conhecimento, para a procura por intervenções para este problema”.

A professora Fabiana enfatiza que o evento foi bem acolhido pela comunidade e bastante positivo para professores e alunos. A diretora do Sebisa espera que outros momentos de discussão do tema possam ser realizados para elevar cada vez mais a sensibilidade dos profissionais formados pela UEPG. “Para os acadêmicos dos cursos do nosso Setor, a importância de discutir esse tema se reflete na construção de um profissional mais sensível, com um olhar mais humano, e um profissional que pode, durante a sua profissão, no início de sua carreira, ter momentos em que seja necessário ele enfrentar essas situações de atendimento a pacientes ou de conversas nas escolas, com  as mulheres que possam estar sofrendo abuso, sofrendo violência. Então a formação dessa sensibilização humanizada desse futuro profissional é de extrema importância”, avalia a professora.

Foto: Maurício Bollete

A palestra

A violência contra a mulher e o feminicídio contabilizam números significativos no quadro de violência no Brasil, mesmo com Lei Maria da Penha, criada para coibir esse tipo de violência, em vigor há mais de 10 anos. “A taxa de violência é altíssima. Assim, tratar sobre o tema na Universidade é um passo importante para coibir o feminicídio, sendo extremamente fundamental conhecermos e discutirmos suas características e, dessa forma, implementar ações efetivas de prevenção”, justifica a aluna do 6º ano de Medicina, membro do CA, Ana Flávia Botelho. A colega, Caroline Link, concorda e complementa que o tema é importante não somente para vítimas ou agressores, mas para que todos saibam do que se trata e sejam capazes de identificar situações de violência. “De alguma forma ou de outra vamos, infelizmente, ter contato com situações violentas, ou por sermos mulheres, ou por termos familiares, amigas, pacientes mulheres. Inicialmente, é importante sabermos do que o feminicídio e a violência se tratam para reconhecer as situações em que ocorrem”.

Segundo a palestrante, Dra. Maria Letícia Fagundes, o feminicídio costuma ser o resultado de um longo ciclo de violência e nem sempre as mulheres conseguem identificar essa vulnerabilidade. “Quando falamos disso, colocamos luz sobre o problema, e com informação, as mulheres têm melhores condições de reconquistar sua autonomia”. Ao falar disso para os profissionais da saúde, Maria Letícia afirma que se traz um ganho à questão, já que muitos casos são atendidos dentro do sistema municipal de saúde. “É importante capacitar esses profissionais para que eles estejam sensíveis a esses casos. Atender vítimas de violência requer sensibilidade, cuidado e atenção, e capacitar as equipes para isso é fundamental”, destaca.

Ana Flávia avalia que, com a palestra, foi possível compreender melhor como lidar com casos de violência contra a mulher e quais serviços acionar quando, na prática profissional, entrarem em contato com situações como essa. “Por exemplo, em Ponta Grossa temos a Casa da Mulher, a Patrulha Maria da Penha e o Hospital Universitário, que se tornou há pouco tempo referência para receber vítimas de violência”, explica.  

A Dra. Maria Letícia também falou sobre as leis de violência de gênero no Brasil. “Conseguimos  entender que, por mais que elas existam, são insuficientes para atender essas vítimas e que, com certeza, precisamos lutar por alterações que realmente acolham e protejam essas mulheres”, relata Ana Flávia. Caroline destaca ainda que as mulheres têm amparo e espaços de fala e debate são importantes para as vítimas: “Foi importante a mensagem que ficou, de que as mulheres vítimas de violência não estão sozinhas, através da exposição de iniciativas que amparam as vítimas ou que buscam evitar que a violência ocorra”.

Foto: Maurício Bollete

O evento contou com a presença de aproximadamente 270 pessoas. Para Ana Flávia, isso demonstra que discussões como essa se fazem necessárias, tanto na sociedade quanto no meio acadêmico. “Que essa palestra seja o início para novas discussões e eventos com essa temática”, deseja a aluna. Caroline avalia que a Universidade é um espaço de análise e debate acerca de problemas sociais e proposição de soluções. “Especificamente sobre os estudantes da área da saúde, este conhecimento é de extrema relevância pois futuramente irão reconhecer ou dar atendimento a estas vítimas de violência, devendo tratá-las com acolhimento, humanidade e respeito, tendo conhecimento técnico dos processos médicos e legais a serem seguidos”, ressalta.

Sobre a adesão ao evento, a palestrante afirma que a experiência foi muito positiva. “Foi uma satisfação ver o auditório cheio, mas não só isso: o grau de engajamento de quem estava lá também foi motivo de alegria. O tema é pesado e quando conseguimos oportunizar esses espaços, ficamos com a sensação de dever cumprido”, afirma. 

Para a Dra. Maria Letícia, nós, enquanto sociedade, podemos e devemos trabalhar contra essa violência: “Essa luta é realmente de todas e todos e como a violência contra a mulher acontece em diversas nuances, é importante que todos estejam atentos a isso. Não normatizar situações comuns de repreensão às mulheres, acompanhar amigas e familiares nas denúncias, cobrar das autoridades competentes o andamento dos inquéritos e educar contra o preconceito. As frentes de trabalho são inúmeras e cada atitude conta”.

Reprodução: https://www.uepg.br/violencia-contra-a-mulher-sebisa/
Texto: Cristina Gresele | Fotos: Maurício Bollete

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