Vereadora Maria Leticia promove debate sobre parto humanizado e parto hospitalar

A Comissão de Saúde, Bem-Estar Social e Esporte vai procurar a Secretaria Municipal de Saúde para dialogar sobre parto humanizado em Curitiba. É o que a presidente do Colegiado, Maria Leticia Fagundes (PV) garantiu aos participantes de uma reunião pública que debateu sobre parto hospitalar e parto domiciliar. De um lado, profissionais de saúde defendem a segurança das mães e dos recém-nascidos. Do outro, mulheres queixam-se da frieza do atendimento nas maternidades e da falta de informações sobre os procedimentos aos quais a parturiente será submetida, principalmente quando o parto é feito pelo Sus. Além de Maria Letícia, o debate foi promovido também pelo vereador Goura (PDT).

“Existe a preocupação da Secretaria de Saúde com o parto humanizado, haja vista que o Hospital do Bairro Novo já mostra essa tendência, com 80% de partos vaginais. Então temos certeza que o campo é fértil. Vamos tentar ampliar essas estratégias para que o atendimento das mulheres seja não só no hospital, mas quem sabe em seus domicílios mesmo”, apontou a vereadora, que informou que o colegiado vai promover uma reunião pública com a Secretaria de Saúde no próximo semestre, já com uma conversa preestabelecida. “Se não está bom, vamos tornar bom, este é o compromisso.”

“O que me levou à discussão sobre parto humanizado foi me tornar pai. Acho que essa preocupação só surge quando vamos vivenciá-la diretamente”, contou Goura, que disse ser pai de duas meninas, uma nascida de cesária e a outra em casa. “Somente após essa situação eu fui conhecer sobre violência obstétrica, episiotomia.” Para ele, é preciso usar o espaço democrático da Câmara para discutir o princípio da não violência. “Essa primeira conversa foi para alinharmos a discussão e cobrarmos da prefeitura uma melhora.”

Segundo a advogada e psicóloga Deisy Maria Rodrigues Joppert, da Comissão de Estudos sobre Violência de Gênero da Ordem dos Advogados do Brasil Seção Paraná (OAB-PR), no Brasil há leis que contribuem para o parto humanizado, mas não há norma específica que trate sobre violência obstétrica. “Há um projeto a respeito disso na Câmara Federal [7.633/2014, do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ)], mas está parado na Comissão da Mulher”. Segundo ela, a matéria cita 22 situações de violência, como a realização de cesariana sem que haja indicação clínica ou episiotomia (incisão na região muscular entre a vagina e o ânus para ampliar o canal de parto) sem comunicar a parturiente.

Como exemplo de apoio ao parto humanizado, Deisy citou uma lei aprovada na Câmara de Curitiba em 2016 que garante às parturientes optarem pelo acompanhamento, na sala de parto do hospital, de uma doula de sua confiança (lei 14.824/2016, do vereador Colpani). “Prevê inclusive advertência aos hospitais, como sindicância ou denúncia aos órgãos competentes, no descumprimento.” Ela reforçou a necessidade de denunciar instituições que não contribuam com o parto humanizado, recorrendo à ouvidoria do Sus ou até mesmo ao Ministério Público.

“Ao meu ver, [o parto humanizado] não é uma disputa de local contra local, e sim o modelo de atendimento, independente de ser no hospital ou em casa.”, disse a enfermeira da Universidade Federal do Paraná, Adelita Gonzalez, que também atende a partos domiciliares planejados. Para ela, é necessário respeitar a fisiologia do processo: “A autonomia da mulher sobre seu corpo e do profissional quando tem que fazer o julgamento técnico da situação. Precisamos oferecer informação de qualidade para que juntos possamos fazer a escolha.”

“Não recomendamos”
Já o obstetra e professor da Universidade Federal do Paraná, Narcizo Leopoldo Sobieray, diz que respeita o direito de escolha da paciente “mas não recomendamos o parto domiciliar”. Segundo ele, “parto hospitalar tem mais intervenção médica porque usamos protocolo de prevenção”. Membro da Comissão de Obstetrícia da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Paraná (Sogipa), ele citou que os Objetivos do Milênio, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, foram alcançados em Curitiba. “Houve redução da mortalidade infantil em mais de 50%. Em 2016, reduzimos a mortalidade materna em 75%.

Segundo ele, a principal causa de morte materna são as hemorragias pós-parto e doenças como diabetes e cardiopatia grave. “Há ainda partos obstruídos, em que pacientes sem acesso a hospitais acabam morrendo.” Dados apresentados pelo profissional mostraram que em Curitiba vem acontecendo queda acentuada de mortes maternas. “Em 2013 tínhamos 36 mortes por 100 mil mulheres, e em 2015, foram 8 por 100 mil, são dados muito próximos aos dos Estados Unidos.” Já a queda na mortalidade neonatal em Curitiba, segundo ele, atingiu os objetivos do milênio em 2014. “Foram 7 óbitos por mil nascidos vivos.”

Sobre isso, o pediatra e neonatologista Carlos Alberto Fernandes Baltar defendeu que o uso das tecnologias nos hospitais foi o que ocasionou essa redução, a partir de 1970. “Toda a nova tecnologia tem um resultado prático, um impacto fundamental para reduzir taxa de mortalidade neonatal.” Para ele, não há evidência científica que comprove que o parto domiciliar é seguro para o bebê. “Não há como dizer que ao oferecer o parto domiciliar estamos oferecendo o menor risco, acho que efetivamente não estamos oferecendo”, enfatizou. “Se não é seguro então vamos tornar seguro, já que estamos discutindo isso”, rebateu a vereadora Maria Letícia.

Parto vertical
O encontrou também contou com a participação do médico obstetra Claudio Paciornik, inventor do módulo de parto vertical. Ele dirigiu e produziu filmes sobre estudos junto aos índios a respeito do tema. “Fui ver que as índias, com 10 filhos, tinham o períneo íntegro. Fomos verificar que a posição do parto era vertical, ou de cócoras ou de joelho, ninguém ficava deitado com as pernas para cima”, lembrou. Ele falou também da forte ligação da mãe com o filho que o parto vertical promove, “Quando nasce o nenê a mãe o olha.”

O debate foi aberto também a outros profissionais da área e à comunidade que esteve presente, como representantes da União Brasileira de Mulheres, Comitê de Prevenção de Mortalidade Materna do Paraná, Instituto Curitiba de Saúde (ICS), Faculdade Paranaense, Associação das Doulas de Curitiba, Maternidade Alto Maracanã, Comissão de Saúde da Mulher do Conselho Nacional de Enfermagem do Paraná (Coren), Federação dos Hospitais e Maternidades de Curitiba, dentre outros. Os vereadores Katia Dittrich (SD), Marcos Vieira (PDT), Professor Silberto (PMDB), Oscalino do Povo (PTN) e Thiago Ferro (PSDB) também compareceram ao evento.

Texto:          Michelle Stival da Rocha
Revisão:          Marcio Alves da Silva

Foto: Rodrigo Fonseca

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